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THOMAS BARNETT: O profeta do império [The Epoca interview in Portuguese]


THOMAS BARNETT

O profeta do império




[NOTE: That's a picture of me standing on the Mall about a half mile from the U.S. Capitol building. It was a very foggy day.]


Consultor do Pentágono aposta que 12 países virarão Estados americanos até 2050. Entre eles estão o México e nações asiáticas


EXPEDITO FILHO, de Nova York




A globalização pode ser uma arma tão eficiente quanto os Exércitos no mundo que surgiu depois do ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center. Por meio de concessões comerciais e de investimentos do setor privado em países que ainda não têm suas economias irrigadas pelo capital globalizado, o mundo do futuro será mais pacífico. As nações que continuam isoladas e compõem o chamado gap da globalização - localizadas em parte do Caribe, dos Andes, da África, dos Bálcãs, da Ásia Central, do Sudeste Asiático e do Oriente Médio - teriam suas economias ligadas ao chamado núcleo globalizado, onde já se encontram Estados Unidos, Europa, China, Japão, Rússia, Índia, Brasil, Chile e Argentina. Com a redução desse vão entre os países periféricos e os de centro, o terror estaria com seus dias contados, acredita o professor Thomas P.M. Barnett, da Escola Naval Americana. De outubro de 2001 a junho de 2003, o doutor em Ciências Políticas pela Universidade Harvard foi assessor e estrategista do secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, e, hoje, presta consultoria para o Pentágono. Em entrevista a ÉPOCA, explicou as idéias que compõem o livro O Novo Mapa do Pentágono, recentemente lançado por ele nos EUA.


ÉPOCA - Qual é o novo mapa do Pentágono?


Thomas Barnett - O mapa começa por traçar os lugares para onde os Estados Unidos têm enviado tropas ao redor do mundo desde o fim da Guerra Fria. São pontos de violência maciça ao redor do globo, para os quais sentimos a necessidade de dar uma resposta. Do contrário, muita instabilidade pode resultar disso e muita gente pode morrer. O que fiz foi traçar uma linha em torno de 95% desses casos e perguntar: o que há nessas regiões para atrair intervenções militares americanas de tempos em tempos?


ÉPOCA - O que resultou dessa análise?


Barnett - Observei que essas regiões são formadas por países menos conectados com a economia global. Muitos exportam apenas uma ou duas matérias-primas e poucos produtos manufaturados. Chamo essas regiões de não-integradas - o fosso (gap, em inglês). Fazem parte dele a maior parte do Caribe, a porção andina da América do Sul, quase toda a África, os Bálcãs, a Ásia Central, o Cáucaso, o Oriente Médio e muito do Sudeste Asiático. Dentro desse fosso encontram-se todos os conflitos desde o fim da Guerra Fria: as guerras civis, a limpeza étnica, o genocídio, o estupro em massa como instrumento de terror, crianças forçadas a guerrear, os principais exportadores de drogas e os grupos terroristas que mais nos preocupam. Percebi que desconexão com o mundo globalizado implica perigo.


ÉPOCA - Em que sentido?


Barnett - Se sua economia não está conectada com a economia global, a probabilidade de seu país viver uma situação de violência em massa é muito maior. Assim como o risco de atrair uma intervenção militar do exterior, mais provavelmente dos Estados Unidos. Existe também o que chamo de núcleo funcional da globalização ou, grosso modo, onde vivem dois terços da população global. Nele estão incluídos América do Norte, Europa, Rússia, China, Índia, Japão, Coréia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Argentina, Chile e Brasil. Entre esses países há uma chance muito remota de guerra, no sentido tradicional. Portanto, a principal missão militar das nações do núcleo é trabalhar coletivamente para melhorar a segurança no fosso. E, com isso, ajudar essas regiões a se integrar na economia global de maneira mais justa.


ÉPOCA - Qual é o papel do Brasil nesse novo mapa do Pentágono?


Barnett - O Brasil é parte do núcleo funcional da globalização porque saiu da forte dependência de exportação de matérias-primas para um novo perfil econômico, que inclui produtos manufaturados como aço, uma agricultura forte em escala industrial e avanços reais em produtos médicos e de biotecnologia. O Brasil também é um país estável, sem risco real de guerra, embora como muitos países do fosso tenha alguns problemas de segurança em sua fronteira. Especificamente, na área da Floresta Amazônica.


ÉPOCA - Nesse novo desenho, há algum risco de o Brasil perder a Floresta Amazônica?


Barnett - Não vejo risco. Muito pelo contrário. O Brasil precisa - e está sendo bem-sucedido nisso - gerar transparência na Bacia Amazônica para impedir tráfico de drogas, pilhagem ambiental e que terroristas busquem refúgio na floresta. Acredito também que o Brasil precisa jogar um papel maior na segurança não apenas da América do Sul, mas de uma forma geral nos países da chamada região do fosso. Cada vez mais, a saúde econômica do Brasil vai depender de sua habilidade em se manter conectado com a economia global. É notável o crescimento dos laços econômicos entre o Brasil e a China nos últimos anos.


ÉPOCA - O senhor prevê que até 2050 mais 12 países virarão Estados americanos. Como será isso?


Barnett - Economicamente, o México já é parte dos Estados Unidos. E, até 2050, um em cada três eleitores nos Estados Unidos será hispânico. É grande a probabilidade de o México se juntar ao país de maneira pacífica para criar um novo e maior Estados Unidos da América. A nação mudaria à medida que novos Estados se juntassem, como aconteceu no passado. Não é apenas uma questão de alguém desaparecer, mas de se juntar a algo maior que todos vejam como benéfico.


ÉPOCA - A nação terá Estados também na Ásia ou no Oriente Médio?


Barnett - Os Estados Unidos são o único país no mundo fundado em torno de uma idéia, e não de um território. Nosso conceito de Estados juntos para formar uma união política e econômica maior pode se espalhar pelo mundo. Somos a união política e econômica mais antiga e bem-sucedida. Não há razão para esse modelo não crescer. Assim como ocorreu com a União Européia, espero ver uma união de Estados asiáticos nas próximas décadas. O conceito é muito maior que a nação ''América''.


ÉPOCA - Países como França e Alemanha aceitarão a hegemonia americana?


Barnett - Não vejo hegemonia. Não sei o que essa palavra significa na atual era da globalização. Essa é uma velha linguagem aplicada a uma realidade nova e muito mais complexa. Como dizer que os Estados Unidos fazem a guerra sozinhos se outros pagam para comprar a nossa dívida? Nenhum país age sozinho, porque tudo está conectado. Hegemonia é uma palavra de um tempo que não existe mais.


ÉPOCA - Que tipo de relação haverá entre a China e os Estados Unidos?


Barnett - A China e os Estados Unidos serão parceiros estratégicos porque compartilham interesses econômicos. A influência da China ao redor do mundo é baseada na adoção do capitalismo, que, por sua vez, gera enorme demanda por recursos. Isso é bom e natural. Então, não deve haver receio de nossa parte. Não vejo uma nova guerra fria. Apenas alguns idiotas em altas esferas que ainda sonham com esse nonsense.


ÉPOCA - Os Estados Unidos vão invadir a Coréia do Norte?


Barnett - A questão-chave é conseguir que a China queira que o ditador da Coréia do Norte, Kim Jong II, deixe o poder. Se os Estados Unidos e a China entrarem no palácio de Kim para falar que é hora de sair, meu palpite é que ele se submeterá, como Baby Doc, no Haiti, ou Charles Taylor, na Libéria. Se ele não aceitar pacificamente, seus subordinados vão ajudar na remoção dele. Acredito que sua base de poder está muito mais abalada do que se imagina. Então, não acredito em invasão. Vejo mais um golpe engendrado com pessoas locais. Kim conseguiu armas nucleares e não é possível confiar nele como um ser racional. Além disso, a Ásia precisa de uma aliança militar que amarre todos os grandes poderes e gere equilíbrio, como a Otan faz na Europa. A remoção de Kim é o gatilho para esse desenvolvimento positivo. A hora dele chegou.


ÉPOCA - Por que o senhor pensa que o mundo de seus filhos depois do 11 de setembro está mais seguro que o de seus pais durante a Guerra Fria?


Barnett - Meus pais viveram a ameaça de guerra nuclear global, que hoje não é sequer cogitada. Dizer que os terroristas podem conseguir a bomba nuclear não é o mesmo que duas superpotências nucleares entrarem em guerra. Não há comparação entre os dois períodos. O que enfrentamos hoje é a violência entre Estados e terroristas transnacionais. Isso é mais complexo, mas os problemas são menores.


ÉPOCA - O senhor considera George W. Bush preparado para liderar essa transformação?


Barnett - Bush foi perfeito no período pós-11 de setembro. Acredito que respondeu à altura. Nisso, ele foi como o ex-presidente Harry Truman depois da Segunda Guerra Mundial. A questão agora é: a política de Bush será aceita pelo mundo? Se não for aceita, as vitórias dele podem ser temporárias e custar mais caro do que valem. A longo prazo, penso que fará um bom segundo governo. Sua reeleição foi a confirmação de que os Estados Unidos estão levando a sério a guerra contra o terrorismo. A possibilidade de o mundo se ajustar nessa direção é maior que a de Bush mudar seu ponto de vista, embora ache que ele adotará um estilo mais suave com os aliados.


ÉPOCA - O Pentágono subestimou a Al Qaeda?


Barnett - Sim. Subestimamos o papel dos terroristas no mundo pós-Guerra Fria porque falhamos em reconhecer a profundidade de nossa vitória. Não há mais nenhum perigo de guerra entre as grandes potências. A guerra entre Estados está desaparecendo porque o poder militar americano é incomparável. Quando esses assuntos estão fora da mesa, o que sobra é o terrorismo. O Pentágono não se sente confortável lidando com o terrorismo porque essa guerra é muito assimétrica. Mas o 11 de setembro requer que lidemos com essa ameaça agora. Isso significa mudar o nosso Exército dramaticamente nos próximos anos.


ÉPOCA - A Al Qaeda ainda desafia os Estados Unidos. O mundo ficou mais seguro depois da invasão do Iraque?


Barnett - O mundo ficou mais seguro. Só não está ainda mais porque a ocupação foi mal conduzida. Os Estados Unidos precisam de dois tipos de força militar: uma especializada em guerras como essa que derrubou o odiado regime de Saddam Hussein. Outra capaz de efetivamente manter a paz e os esforços de construir uma nação. Os Estados Unidos precisavam manter ambas as forças por algum tempo. Se a ocupação malfeita provocar o surgimento dessa força focada na manutenção da paz, terá servido a algum propósito.


ÉPOCA - Algo mudou na organização dos grupos terroristas?


Barnett - Depois da invasão do Iraque, a Al Qaeda e outros grupos terroristas do Oriente Médio em geral estão de volta ao padrão geográfico que vimos nos anos 70 e 80. Ou seja, eles podem atacar em todo o Oriente Médio e em partes do sul da Europa e da Rússia. Mas não parecem capazes de voltar a atacar os Estados Unidos. Então, é melhor que a violência ocorra no lugar ao qual ela pertence do que nas ruas de Nova York. Não se vence uma guerra global contra o terror até que o Oriente Médio se junte ao núcleo funcional da globalização, oferecendo mais que apenas petróleo e terrorismo. Precisamos conectar aquela região com o mundo exterior mais rapidamente do que os Bins Ladens possam desconectá-la.


ÉPOCA - Por que o senhor acredita que o Oriente Médio sofrerá grandes transformações nas próximas duas décadas?


Barnett - São três fatores. A juventude entrará na meia-idade e isso criará uma sociedade impaciente por mudanças políticas. Além disso, o tempo está se esgotando para a economia baseada no petróleo. A demanda global por petróleo atingirá o pico em 2025. Em terceiro lugar, os Estados Unidos estão no Oriente Médio para ficar, porque se saírem o terrorismo internacional fará algo até pior que o 11 de setembro.


ÉPOCA - Outros países seguirão os passos dos Estados Unidos na região?


Barnett - A expectativa é de que os países poderosos da Ásia entrem no Oriente Médio por causa de seus interesses econômicos. É bom lembrar que a Ásia já consome a maior parte do petróleo que sai do Golfo. Essas necessidades vão dobrar nas próximas duas décadas. O Iraque de hoje é só um palito de fósforo. O fogo vai ser aceso, se não pelos Estados Unidos, por outro país. É só uma questão de tempo.


ÉPOCA - O senhor é o sonhador de um novo mundo conectado ou o filósofo da hegemonia americana no século XXI?


Barnett - De novo essa palavra. Hegemonia nega conexão e a América é a conexão personificada. Acreditamos em certas premissas para gerar riqueza e desenvolvimento, enquanto alguns outros países geram conflitos e insegurança. Seria ótimo se os governos do mal, localizados no fosso, pudessem desaparecer sem esforço militar do centro, mas isso não é plausível. Países isolados representam sempre um grande risco de violência. O mundo é pequeno e está ficando menor ainda. O conflito está desaparecendo na região do centro do planeta e permanecendo apenas no fosso. Reduzi-lo é acabar com a guerra. O fim dos conflitos iguala hegemonias, e aí eu não sei o que essa palavra significará.



Formação
Doutor em Ciências Políticas pela Universidade Harvard e professor da Escola Naval Americana

Trajetória

Assessor e estrategista do secretário de Defesa americano, Donald H. Rumsfeld, até junho de 2003


Ocupação atual

Consultor do Pentágono e autor do livro O Novo Mapa do Pentágono, lançado nos Estados Unidos



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